Underground e ideologia?

Nesses tempos em que conflitos ideológicos, terras planas e buracos negros coexistem (não pacificamente) a relatividade vira uma leve brincadeira para disfarçar os tempos pesados que estamos passamos, pois 1989 parece tão longe e tão recente ao mesmo tempo já que no nosso primeiro show, em 29 de setembro, fará 30 anos mas é tão vívido na memória como qualquer outro (inclusive uns que nos esforçamos em esquecer).

O vídeo desse momento histórico que sobreviveu é um documento daquela época: a maioria dos que aparecem nele são próximos até hoje, muitos detalhes das conversas que aconteceram são motivo de reflexão (ou piadas, claro). Gostaria de lembrar um deles: uma quase briga entre dois bangers que faz rir até hoje mas que nas entrelinhas pode trazer à tona alguns detalhes sobre o Underground atual, principalmente o comentário “…me deixa voltar lá, quero discutir a ideologia com ele…”.

Quase trinta anos após aquele evento, com uma razoável multiplicação de fãs (não me refiro à banda, mas ao Metal brasileiro no geral), temos shows com públicos menores que aquele que foi, repito, o nosso primeiro. O que aconteceu?

Estavamos aprendendo a ter um Underground, como bandas aparecendo a cada dia, estilos diferentes e uma luta para termos dinheiro para comprar discos, fitas, ingressos, revistas, camisetas, merchandising e a bebida. Eram tempos de dinheiro escasso, pois a maioria não tinha emprego ou se submetia a sub-emprego, mas existia um equilibrio entre o mercado Underground e o mainstream.

É exatamente isso que você leu: mercado. E isso não é ruim, pois a estratégia de guerrilha de sair dos arbustos, atirar e voltar para o esconderijo, fornece uma bela analogia com o Underground. E fora o movimento skinhead, que não se alinhava, punks e headbangers aprenderam a conviver quase que pacificamente, compartilhando eventos e experiências, gerando influências entre si e lutando contra o inimigo comum.

Mas se tínhamos um mercado, qual exatamente era esse inimigo?

Enquanto bandas que representavam o undeground fechavam com grandes selos e gravadoras e pensávamos que seriam melhor para eles serem reconhecidos pelo trabalho e ganharem mais, mas ao mesmo tempo temíamos pela modificação do som e traição das bandas, continuavamos consumindo, mais e mais, sem atentarmos para esse detalhe, que na verdade a estratégia (sim, é estratégia de marketing) era absorver o Undeground e criar novos produtos que enchessem festivais, vendessem mais discos, revistas, camisetas e merchandising. Várias bandas pop surgiram com o status de Metal (bandas criadas especialmente para isso ou antigas bandas de Metal que resolveram massificar o produto) que hoje são consideradas clássicas.

Hoje em dia poucos sabem diferenciar o consumo de massa com o cooperativo e com o advento do compartilhamento de arquivos na internet o Underground luta para sobreviver. E darei um simples exemplo prático: lançamos nosso primeiro álbum em LP e CD, e quase 4 anos depois os valores de venda direta deles baixaram, pois a falta da procura faz exatamente isso (ler a definição de economia de mercado), mas os fãs nos ouvem no spotify e a mensalidade dele aumentou (para os que pagam) e teoricamente deveríamos receber mais, mas quase 4 anos depois de estarmos nas plataformas digitais recebemos menos de R$ 100 pelas execuções. E não temos acesso às estatísticas das plataformas nem dos indexadores (não podemos colocar nossas músicas direto nas plataformas). Em resumo, várias empresas recebem a maior parte dos valores que deveriam ser destinados às bandas.

Essa semana li um artigo de uma revista internacional em que eles perguntavam se estávamos matando nossos ídolos, pois Mick Jagger e Ozzy eram obrigados a tocar quando deveriam estar aposentados e me perguntei se realmente quem paga para ver um show deles tem a experiência sensorial de estar em um show Undeground ou se está lá apenas para ter a oportunidade de contar que foi ou pagou a mais para tirar uma foto. Enquanto isso os shows Undeground seguem vazios, as pessoas continuam bebendo do lado de fora, não pagando o ingresso e não consumindo merchandising, mas tiram fotos e postam e redes sociais fingindo serem apoiadores da cena.

Me arrependo de não ter deixado os bangers discutirem a ideologia em 1989. Vai que isso mudasse tudo?

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